O valioso tempo dos maduros

em 5 de janeiro de 2017


"(...) Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas.

As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.

"Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.

Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.

Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.

Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.

Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos.

Detesto fazer acareação de desafectos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral.

As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos.

O meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa...

Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, que não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade.

Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,

O essencial faz a vida valer a pena.

E para mim, basta o essencial!"

(Mario de Andrade)

Durante as férias, vamos fazer um passeio pelas obras de grandes poetas do mundo, pelas suas indignações e muitas vezes formas ácidas de escrever, embutindo em seus escritos críticas ferrenhas à politica, ou a ditadura da época, por isso os textos virão em suas versões originais, sem correção ortográficas para a nova versão. Acho interessante demais verificar que nem tudo era apenas romance, havia muito de envolvimento, indignação e protesto, espero que gostem, hoje começamos com Mario de Andrade. Amo muito isso!

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