Joaninha parte 2 - Final

em 7 de outubro de 2016



Enquanto aguardava, Joaninha experimentou todos os sentimentos, alegria, ansiedade, euforia, medo, tristeza, receio... Naquela poucas horas ela pensou em tantas coisas, tantos questionamentos e medo de falhar...

Quando José entrou naquele quarto que era meio seu, ele viu Joana sentada no chão, cabelo preso, usando uma roupa muito curta para uma mulher andar ao seu lado, uma trouxa de roupas que ele sabia não serem diferentes da que ela vestia. Ele estendeu a mão e ela segurou firme, só que desta vez ela tinha dúvidas se era uma corda de salvação, mas de uma coisa ela tinha certeza, uma grande mudança iria acontecer.

Quando chegaram à sala, tia Jandira e mais meia dúzia de “tias” os esperavam, elas se despediram de Joana com certa emoção e orgulho. Ela prometeu a tia Jandira voltar, e nesse momento a mão de José apertou a dela e então entendeu que não voltaria mais...
Ele caminhava rápido, enquanto ela franzina como era quase corria para acompanha-lo. Joana entrou pela primeira vez em um carro... Com olhos desconfiados ela procurava ler a expressão de José, mas ele não disse nada, apenas para não ter medo.

Entrando naquela casa, tão diferente da casa que sua mãe viveu um dia... Era branca, tinha janelas grandes, jardim e uma horta, tinha jeito de nova e poucos móveis, havia cômodos vazios... Ela virou-se e olhou parado à porta. Foi então que ele veio até ela e a abraçou, disse que agora ela tinha uma casa, mas que não poderia estar com ela todos os dias pois, precisava trabalhar, mas, que agora ela era uma mulher casada e que não tinha mais do que se envergonhar... Era confuso, pois Joana nunca se envergonhou, será que deveria?

Foram difíceis os primeiros dias, era uma casa vazia e silenciosa. Foram muitas noites esperando e tantas que dormiu chorando, mas Joana se acostumou a não ter certeza de nada. José era bom, lhe trouxe um rádio, mas as vizinhas de Joana não gostavam dela, na verdade ela não tinha certeza já que não conversavam com ela e a ignoravam enquanto ela lavava as roupas, José tinha comprado roupas novas e que mantinham a maior parte do seu corpo coberto.



Sentia-se sozinha e estava decidida, queria um filho. Olhava-se no espelho e estufava a barriga, isso a fazia sorrir...

Quando José chegou naquela noite calorosa de Janeiro ela foi ao seu encontro e começou a falar animadamente sobre a criança que desejava. Quando ele parou e colocou as mãos no rosto, ela teve medo de sua expressão. Saiu e foi esquentar a janta, da cozinha podia ouvir ele se lavando no banheiro do lado de fora da casa. Jantara em silêncio, ela evitou olhar para aquele homem que ela tinha aprendido a amar, embora a luz do candeeiro fosse fraca e não facilitasse a visão.

Quando levantou para limpar a mesa José segurou a sua mão, pediu que se sentasse. Joana sabia que o que estava por vir não era bom, contudo sentou-se de cabeça baixa e por traz das cortinas douradas de seus cabelos ela percebia seu olhar sobre ela. Foi então que José disse que era casado, tinha esposa e filhos, mas prometeu que nunca a deixaria. Joana chorou, mas dessa vez ela sentia seu peito rasgando e seu choro não foi silencioso, era um grito de dor e ela sentia como que a corda que José estendeu a ela tinha uma âncora na outra ponta. Ela estava sufocando em suas lágrimas... José a puxou sentou-a em seu colo como uma menina que ela era e enxugava suas lagrimas com beijos e prometeu-lhe que deixaria tudo e ficaria com ela. Joana não acreditou em suas palavras, mas não relutou as suas carícias e o “serviu” na cama, pois ela só tinha aprendido a obedecer...

Passaram-se muitos meses, era Natal e Joana ainda adormecia a maioria das noites sozinha. Agora ela não lavava mais roupa e nem ia à feira onde as pessoas a olhavam com desprezo e ela sabia o porquê, José havia colocado uma moça para fazer o serviço. Joana era uma mulher agora mais alta, mais forte, contudo sozinha.

Era Abril, as manhãs começavam a ficar mais frias e ela entrançava o cabelo, quando bateram palmas em sua porta, Joana espiou e era uma das meninas que moravam na casa da tia Jandira, era um recado, tia Jandira queria falar com ela. Joana perdeu o chão... José disse que ela não deveria voltar lá nunca mais, contudo como ela poderia negar isso àquela mulher que apesar de tudo a poupou de coisas que hoje ela entendia. Ela iria e foi, ainda naquela manhã, pois nesse horário José não estaria em casa.

Tia Jandira a abraçou e disse que ela parecia uma mulher honrada, mas para Joana ela sempre foi! Ela disse que uma mulher que estava indo embora daquela cidade estava dando seu filho de dois anos e que ela achou que como Joana não tinha “pego barriga” ainda, talvez quisesse ficar com o menino. Joana sentiu uma alegria, enfim alguém para lhe fazer companhia, um menino, alguém que ela pudesse dar o amor que nunca recebeu... Alguém que ela jamais abandonaria como sua mãe, nem faria dormir e se suicidaria como seu pai... Seus olhos marejados d´água... Mas e José? Ela não podia responder sem falar com ele, pediu a tia Jandira que esperasse ela falar com ele e foi aceito.

Já era quarta-feira e José não havia aparecido aquela semana, Joana não aguentava mais aquela espera... “Joana, cheguei”. A voz de José era musica naquele momento, mas ela não ia se adiantar e estragar tudo, esperou até a hora do jantar, enquanto comia ela tocou temerosamente no assunto, José somente escutava e, Joana continuava a falar da criança e disse ter pensando que ter um filho com ele era o maior de seus sonhos e ela não ficaria mais tão sozinha. Sem argumentos diante da promessa não cumprida, José concordou, ela podia trazer a criança.

Joana nunca pediu que uma noite passasse rápido e que José tomasse logo o café e fosse embora, antes de partir ele lhe disse que não fosse à casa da tia Jandira, mas mandasse recado por Ilda, a moça que lavava roupas e que usasse o dinheiro que lhe deu para comprar algo para o menino. Ela sorriu e se apertou contra aquele corpo grande.

Ela olhava aquela criança, tão indefeso, sujo, com pequenas feridas... Joana o amou imediatamente, tomou em seus braços e o beijou. Ele era tão pequeno para 02 anos, era moreno e até se parecia com José, exceto o cabelo que era crespo... Ela o levou até o rio, deu banho e o "deu de comer", sempre chorando de uma forma inexplicável. Deixou-o com Ilda e foi comprar alguma roupa para ele, banheira, um carrinho, uma mamadeira e tudo que o dinheiro deu para trazer... Na volta para casa Joana não andava de cabeça baixa, ela estava orgulhosa por ser mãe, orgulhosa demais para se preocupar com os outros, ela era um todo felicidade.

“José olhe, ele não é lindo!”, foi à frase que ela esperou ansiosa para dizer durante uma semana que ela nem se deu conta ter passado... E José o pegou no colo e ele também tinha alegria naqueles olhos, embora não demonstrasse.
Naquela noite, toda atenção foi dele. Enquanto ela limpava a cozinha ela ouvia os risinhos do pequeno e assim brotavam também os seus. E José passou a vir duas, três vezes na semana, ela sabia que aquele menino era o motivo. Ele recebeu o nome do pai que trouxe sua certidão de nascimento e seu aniversário passou a ser a data que ele encontrou os braços de sua nova mãe 10 de Abril de 1941.

Joana tinha quase tudo, uma casa, um filho, até Ilda que ela tinha como uma irmã mais nova, mas ela ainda tinha um meio marido, não que olhando para sua vida até então ela pudesse se queixar, ao contrário ela rezava todo dia como a sua madrinha a ensinou, em agradecimento...

J. era assim que seu pai no chamava, já estava com 05 anos e Joana se preparava para os desafios de coloca-lo na escola, José já havia dito que ele teria aulas particular, o que era um certo alívio, mas ela não poderia poupá-lo do julgamentos das pessoas por coisas que ela nunca fez a vida toda! Envolta nesses pensamentos que ela se deu conta que ele estava encostadinho no muro e comendo alguma coisa, correu com medo que fosse alguma planta que ela desconhecia. Afinal os conhecimentos de Joana eram limitados... Mas, quando o olhou de perto ele comia pão doce, ela perguntou: "quem deu?" Ele disse “o menino” daquele jeito e com aquele sorriso que só ele sabia fazer. Ela abriu o portão e viu o mocinho que vendia pão, ele a olhou e abaixou a cabeça. Joana tomou o pão de J. e correu com ele pra dentro. Brigou com ele e o proibiu de pegar coisas de desconhecidos. Daquele dia em diante ela passou a vigiá-lo. O moço do pão olhava procurando-o, mas, Joana não correria o risco de perder seu tudo, seu mundo.


Sábado pela manhã José chegou, assustou Joana com o sorriso que carregava, ele não era um homem de sorrir, teria ele bebido?

“Joana vim te buscar, agora você vai morar comigo!”

Ela não acreditava nos seus ouvidos... Era bom demais pra ser verdade! Mas ela era a mesma Joaninha que simplesmente obedecia. Eles arrumaram as coisas todas e Joana foi morar na casa de José, ele contou que sua esposa tinha ido embora, foi morar com a mãe e levou os dois filhos, Joana sabia que estar naquela situação não era a melhor opção, ela sentia culpa e medo, mas enfim José era só dela e permaneceria assim para sempre.

Naquele Natal Joana passeou na cidade olhando os enfeites, sentou na praça, tomou sorvete pela primeira vez em sua vida. Também pela primeira vez ela andou de mãos dadas com seu marido, com seu filho e de cabeça erguida. E, pela primeira vez ela entendeu que tinha enfim uma família e, Joana chorou... Pela primeira vez de felicidade.

Baseado na vida de Joana Maria Neves 
In Memorian 
(1919-2013)

Nota do Autor:

Joana viveu com José João até o falecimento dele em 1970, com ele adotou mais uma filha “Maria”. Foi casada mais 02 vezes. Seu filho J. casou e mudou-se para São Paulo, sua filha Maria, também casou-se e mudou-se para Recife.

J. morreu em 1999.

Após o falecimento de seu terceiro marido em 2002, Joana viveu sob os cuidados de Ilda, até o seu falecimento em 2013.

Não há noticias de sua filha Maria até a atual data.

A frase da foto era uma frase que Joana repetia sempre.

Agradeço a toda paciência e atenção de M. Carmo Neves, para que não cometesse nenhum erro nas datas e detalhes.

“Existem pessoas que passam pelo mundo, mas permanecem para sempre em nossos corações... Os anjos!”

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