Joaninha - Parte 1

em 6 de outubro de 2016



Ela segurou aquela mão como se fosse à corda de salvação em meio ao mar revolto. Seus curiosos e amedrontados olhos azuis tinham confiança no momento em que viu aquela senhora, negra de cabelos penteados num coque... Era a primeira pessoa conhecida que Joaninha via desde que seus pais haviam desaparecido, sua mãe Maria dizia que essa senhora, D. Marizete era sua madrinha, embora Joaninha não houvesse tido um batizado.

A única coisa que ela sabia apesar dos seus poucos anos (apenas 05) era que sua mãe havia lhe dado um beijo na bochecha e chorando havia saído por aquela porta, que era meio barro, meio sapê... Joaninha queria correr atrás da mãe, mas seu pai a impediu... No dia seguinte quando acordou estava deitada ao lado do pai, que estava “dormindo” no chão. As duas semanas que se passou ela havia passado todos os dias na casa da vizinha. Desde então Joaninha não falava, não chorava...

D. Marizete a levou consigo, era uma casa alegre, cheia de moças muito bonitas e a noite chegavam muitas visitas... Os quartos eram lindos! Tinham lençóis que Joaninha nunca havia visto na sua casa... Mas isso não era para Joaninha, seu quarto era ao lado da cozinha e sua cama era de lona, e não tinha lençóis brilhosos... Joaninha também não podia sair do quarto após as 18 horas, era então que ela acendia o candeeiro e ficava imaginando desenhos no teto daquela casa rústica, e com buracos na parede.

As crianças que brincavam no rio saiam quando Joaninha chegava para lavar roupa, às vezes ela se distraia vendo aquela água branca, ela queria brincar, os risos das crianças a agradavam, ela também queria ir à escola com aquele caderninho como as outras crianças, mas ela não podia. Já aos 09 anos, mesmo sabendo que seria castigada ela perguntava a madrinha, porque não podia estudar e porque as outras crianças não gostavam dela, mas recebeu como resposta uma bofetada no rosto, mas, ela não chorou... Prendeu seus longos cabelos loiros, e continuou a abanar o fogão a lenha... Um dia ela iria embora, um dia ela iria estudar, era o que sentia em seu coração.

Ela acreditou que aquele dia estava próximo, quando a madrinha Marizete adoeceu e ficou de cama. Foram dois meses que Joaninha serviu aquela mulher, que bem ou mal era a única pessoa que ela tinha como referência, já que ela era proibida de conversar com as “tias” que moravam naquela casa. Até que ela se foi... Joaninha chorou naquele caminho de terra batida, sob o som do sino da igreja, mais tarde ela iria entender que todos são filhos de Deus... Só que nem tudo foi como ela imaginou que seria. Contudo o mundo escondido por trás daquela porta foi apresentado a ela. Ela já não era mais proibida de conversar com as “tias”, que agora tinham nome e, agora quem ela devia obedecer era a tia Jandira.



Tia Jandira era uma mulher bonita, embora os traços da idade se apresentassem em seu rosto, ela tinha longos cabelos vermelhos que combinavam com as suas unhas. Ria alto, falava alto, bebia muito e, foi assim que ela levou aquela menina franzina de 14 anos para outro quarto, aqueles dos lençóis brilhosos, mandou que soltasse os cabelos, pintou suas unhas e lhe deu roupas novas, que não eram exatamente novas, mas eram curtas e brilhosas... Naquela noite Joaninha pode mesmo que não quisesse sair do quarto e sorrir, sorrir para todas as visitas e eram todos homens... Foi assim que ela descobriu que vivia no submundo de um prostibulo.

Joana, ela era chamada assim agora. Chorou muitas noites, inúmeras noites, pois ela sabia que seu destino não seria diferente ao de todas. Enquanto ela esperava que a tia Jandira escolhesse por ela... Joaninha sabia que havia dinheiro envolvido, ela era agora uma menina que não carregava mais o brilho da pureza no olhar. Todas as noites ela rezava para que tia Jandira nunca escolhesse, mas, seu dia chegou.

Alguém a fez beber algo que queimava por dentro. E a levou até uma das mesas que ficava na imensa sala, tinha musica alta, risadas e um homem... Ele era alto, magro, moreno e tinha os cabelos muito pretos e lisos... Ele sorriu pra ela e embora ela tivesse sido orientada a sorrir, ela não conseguiu... Embora não houvesse medo. Ele a pediu que o levasse até seu quarto e ela obedeceu. Quando aquela porta se fechou, ela rezava em pensamento. Deitou-se na cama, como haviam ensinado, mas ele continuou olhando para ela encostando-se à porta... Ela tremia de medo, de angustia, de um sentimento que ela não sabia descrever...

Ele sentou na cama e falou com ela de um jeito muito manso, era como água batendo na terra quente, era paz em meio à guerra interior que ela vivia. Pediu que não tivesse medo e que jamais a tocaria sem que ela desejasse. Fez com que ela prometesse que não contaria nada a ninguém, disse mais algumas coisas que ela não entendeu pelo efeito do que a fizeram beber. Ela viu ele se levantar, era noite ainda, cobriu-a e saiu...

Foram muitas noites em que ele e ela ficaram juntos, em silencio. Até que ele pediu que ela contasse como foi parar naquele lugar, ela falava baixo, como um segredo... E, ele ouvia enquanto fumava seu cachimbo. Joana aprendeu a gostar daquele cheiro de fumo, de conversar com ele, de estar com ele...

Joana aprendeu a sorrir com ele. E num desses sorrisos ele beijou sua testa e ela gostou. Passou noites onde ela aprendeu a escrever seu nome, ele a ensinou. Joana não entendia porque motivo somente ele ia a seu quarto, nos outros das suas “tias” iam muitos homens diferentes... Joana descobriu seu nome, José João, ela gostou.

Quando José entrou no quarto aquela noite, Joana sabia que devia agradecer. Ela não sabia se era o certo, mas se não fosse ele diria... Jogou-se em seus braços e se entregou a ele. Ele a amou com todo cuidado e respeito que um homem ama uma mulher só sua. Ela ficou atordoada ao ouvir “eu te amo” daquele homem rustico, sério e até frio. Ela não sabia, na verdade nem notou, mas, uma lágrima caiu daqueles doces olhos azuis. Joana sabia que ele era dela, somente dela e pra sempre.

Alguns meses se passaram e José já não ia mais tão frequentemente vê-la. Ele dizia que estava trabalhando em outra cidade, mas tia Jandira nunca a fez atender outro cliente. José pagava por isso e assim o era! Até que numa tarde do mês de Junho, ela foi chamada por tia Jandira para uma conversa. Joana ficou surpresa ao receber a noticia que não moraria mais ali, José a levaria com ele naquela noite. Invadida por uma alegria indefinível ela arrumou numa trouxa suas roupas, que eram quase nada e aguardou...

(continua)

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