Um pescador...

em 9 de setembro de 2016



Sentado, na beira do rio, com sua vara de pescar, aquele moço sequer prestava atenção, era como estar no piloto automático... Observou a cena um senhor, de muita, muita idade, abaixou a cabeça e pensou... Lentamente se aproximou e sentou ao seu lado. O moço não teve nenhuma reação, continuou em seu universo particular... Disse o senhor:

- Tenho acompanhado todos os dias a sua atitude, seus gestos, seu olhar triste e gostaria de me contar o que aflige seu coração?

- Não tenho nada a falar senhor. Esta tudo no controle.


- Olha filho, eu sei que é difícil abrir o coração... Sei que às vezes dói, que às vezes machuca abrir o cadeado do nosso baú pessoal e remexer em coisas mal resolvidas, culpas e medos. E, ainda ser criticado ou mal compreendido.

- Respeitosamente Senhor, eu não tenho culpas, eu simplesmente não posso me arrepender por algo que já passou, eu simplesmente sigo. Também não peço desculpas, procuro somente não repetir os erros.

O senhor abaixou a cabeça e pensou... Ficou em silêncio por um momento... Suspirou e disse:

- Filho, se me permite... É normal lutarmos contra os sentimentos que nos magoam, o que não quer dizer que não existam. Às vezes não os reconhecemos, mas, é humano errar! É humano se arrepender, e ter culpas, ainda que veladas... Isso é viver! E viver requer constante movimento no intuito de acertar. Porém filho meu, ha momentos da vida que colocamos em dúvidas tantas coisas...

- Desculpe, mas posso fazer uma pergunta? Quem é o senhor para achar que sabe tudo de mim?

- Eu sou aquele que vai estar ao seu lado, por todo o seu caminho. O único que pode ler seus pensamentos e os conhece, assim como seu coração.

- Como pode conhecer?- O moço sorriu... - Se nem eu conheço totalmente?

E o senhor prosseguiu falando baixo e calmamente.

- Eu sou um velho que conhece os sentimentos, que já viveu o bastante para entender que mesmo vivo, parecemos defuntos... Aquele que sabe que é possível ressuscitar, renascer e fazer melhor na próxima vez! Aquele que acredita em mentes e raciocínio espetaculares, de pessoas, que ainda não mais menino, tem medo! Entendo que a linha paralela do emocional nem sempre acompanha a linha do intelectual. Já fui moço, já vi muitas coisas e digo sem medo de errar que devemos estar em paz, pois quando algo não deu certo, significa que fomos fortes o suficiente para tentar e tentando acumulando experiência para novas tentativas.

O moço de olhar distante ouvia... Abaixou a cabeça e após um longo tempo de reflexão disse com a voz baixa, quase um sussurro:

- O que quer de mim?

O senhor sorriu e disse:

- Não quero nada filho. Quem ama não cobra, não impõe, apenas ama. Também não me importo se me colocas em questão... Pois existe uma semente plantada, se germinará ou não, depende de como cuidarás do jardim. Por amor eu te digo que onde quer que andares estarei contigo e quando for difícil caminhar, te levarei em meus braços. E afagarei seu coração nos momentos de desassossego.

Espantado o moço olhou-o pela primeira vez... E viu um brilho que nunca havia visto em sua vida, apesar de enaltecer e falar da natureza como poucos. Fechou os olhos e timidamente sorriu...

- Eu não pedi nada disso. Contudo agradeço sua boa intenção.

- Filho, confundes gentileza e amor! Amor que cuida. Que protege e que consola. Que se alegra. Amor que sabe que felicidade não existe, mas que cabe a cada um conquistar seus dias, ocasiões e momentos felizes... Amor que não julga, que não cobra, que não subestima. Amor incondicional que lê o sorriso, o olhar e o coração.

O senhor levantou lentamente...

O moço disse:

- Aonde vai? Me fala tudo isso e vai sem me dizer seu nome?

- Olhe dentro de si, vai me encontrar. Olhe ao seu redor, me encontrará nas pessoas, em gestos, olhares e sorrisos. Encontraras-me na natureza, no canto dos pássaros, na ingenuidade das crianças. Meu nome com ou sem letras maiúsculas é tão simples, procure-o dentro de você mesmo, porque vivo em ti.

O moço emocionou-se, deixou cair o escudo imaginário e virou-se para agradecer aquele ancião, mas ele não estava mais ali sentado...

O moço levantou-se, e foi caminhando lentamente, pensativo... Levando consigo uma paz e apenas uma certeza... “Nunca, jamais esteve e nem estará sozinho.”

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