Uma dose de lucidez

em 24 de julho de 2016





Ela chegou, como eu temia...

Chegou assim quietinha, não fez barulho, não deu escândalo, não criou caso, nem alvoroço... Chegou como algo que não incomodaria, parecia até inocente! Fácil de lidar, polida, até refinada...

Com aquele ar de pessoa sábia, com aquela ligeira amargura no olhar que faz as pessoas mais inteligentes, até mais interessantes.

Chegou...

Trouxe consigo uma dor no peito, uma frieza nas mãos, um aperto por dentro, uma sensibilidade quase indomável... Daquela que não contém as lágrimas nos cantinhos dos olhos...

Ficou ali me mostrando com sua frieza dia a dia... TUDO!

TUDO que eu não era nem nunca fui e TUDO que eu nunca tive! Nem jamais terei...

Seu olhar era uma pergunta a cada novo dia:

“Para onde caminhas?”

Seu sorriso discreto quase imperceptível era um desafio:

“A quem enganas que não dói?”

Sua cabeça inclinada dizia:

“Aguentarás essa solidão?”

Suas mãos segurando as minhas num sutil aperto induziam:

“Desafia o calor, voa alto e por fim deixa a cera derreter! Faz seja o que for... Vida ou morte, mas saí da inércia!”

Aos poucos o peito já dói de forma insuportável, à respiração se fez difícil, os olhos transbordaram em tristeza... O silêncio dominou, o cansaço e a desistência se acomodaram... O passo perdeu o rumo... A vida... vida?

Quando por fim ela hoje deu um passo em minha direção, eu perdi a razão, se é que um dia a tive em mim, perdi a cabeça e jogue-lhe tudo na cara:

“O que quer mais de mim? Já levaste os sonhos, os desejos, as noites de luz, de lua, iluminada! Levaste minhas sinestesia, meus neologismo, a crença em mim, na vida e no amor... Levaste minhas palavras, minha doçura... Destruísses o sorriso, o brilho nos olhos, a vida que eu sonhei em mim com cachinhos dourados... Me fizeste perder a vaidade, as unhas vermelhas, os perfumes doces, os doces desejos e sonhos de nuvens de algodão. Mataste minha alma em definitivo, irrevogavelmente.... E, e quando eu decidi amar sozinha, seguir meu caminho a margem dos meus sentimentos você aparece na minha janela e me diz para “esquecer esse amor que nunca me deu nada”, com que direito, você faz de mim uma casca? Um ser humano oco, uma figura, imagem que sorri, que anda que diz como um mantra as mensagens de boa educação que aprendeu com a vida, quando tudo que carrega por dentro é o líquido ácido, negro e corrosivo da destruição e do abandono? Porque? Porque você aparece, porque me diz? Me diz? Diz “LUCIDEZ”!?!


(Déia Neves)

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