Palavras roubadas




“Observei-as indo para longe de mim pouco a pouco…

Observei imóvel, incapaz de protestar, passivamente, ainda que não sem dor…

Observei sem saber se distante de mim elas fariam menos estrago…

Roubaram minhas palavras aquela noite em que “inadequadamente” fui arremessada conta o muro de pedras pontiagudas, que feriram de morte a minha carne…

Roubaram-nas a ira que brotou de mim em forma de agressão, que usou palavras torpes, das quais me envergonho, e me dobro em arrependimento…

Roubaram-me não só as palavras, mas também a alegria…

Roubaram as minhas palavras a vergonha de ter ofendido ainda que por amor, por desespero, por loucura, insanidade…

Roubaram-nas a sobriedade do amanhecer que embora eu negasse, chegou e com ele trouxe mais dor a cada novo dia…

Roubam-nas a cada novo segundo de ócio, quando não coube em mim de desprezo por mim mesma, por não suportar o grito que quer sair do meu peito, mas que por sadismo não o deixo nascer, crente que por maior que seja a dor será pouca diante de quem fere a quem ama…

Rouba as minhas palavras a dor que aumenta a cada dia, as quais eu já não lamento, saboreio-as, pois é de mim a única e total realidade que me presenteio…

Roubam as minhas palavras o zumbido dentro de meus ouvidos, que me impedem de ouvir o que antes me fazia luzir…

Roubam-nas o black-out de sentidos e sentimentos que um dia eu conheci e que hoje nem o sabor da lembrança existe…

Roubaram… Levaram…

Apagaram minhas palavras, que um dia foi doce, suave e confortante, mas que não obterá perdão pela falha, pela perversão, pela dosagem desenfreada de maldade, pela imensurável sede de punição que ateou fogo em sua própria corda… E que oxalá nunca volte a ser sombra do que foi. Como castigo eterno, por não saber como se deve amar e por ser fútil, leviana e insana… Ou pior,cada vez que se fale, ecoem em seu interior as palavras torpes que um dia ousou pronunciar, pensar, sussurrar, ainda com dor, ficando assim entendido, não proferir palavras mal a quem se tem amor e que isso não seja somente um voto, mas uma oração!”

(Déia Neves)
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