O conto das ostras que não sofrem



Eu preciso descobri onde foi que eu me perdi... Se no seu sorriso, se no seu olhar...

Logo eu que sempre fiz questão de estar centrada, focada em mim...

Logo eu? Como fui permitir me perder...

Durante algum tempo ao seu lado, eu fingi nem te ver, nem estar ali... E nem dar importância a você, afinal, quem é você? Apenas mais um... Um ser humano, uma pessoa, alguém que existe e finge que seu mundo é mais bonito, mais belo, mais poético... E assim eu vivi algum tempo, fingindo que vc não era você em mim, nem que eu já vivia em você de certa forma.

Eu prometi que nunca daria importância a isso, aos seus olhares, risadas ou piscadas... Eu prometi!!! Mais que isso, eu me prometi... Mais ainda eu merecia isso de mim! Eu me devia...

Mas então, quando eu me dei conta, eu nem me dei conta... Quando eu tomei pé da situação, todos já diziam... “Você é tão dele!” ou “Ele já foi seu?” “Diz a verdade?”

E nunca! Nada! Nunca... Neguei, neguei, griteiiiiiiiii... Não adiantava mais... Eu já era sua, sem nunca ter sido...

Nossas mãos já não se continham mais, elas se uniam na menor oportunidade.

Nossos olhares sempre ligados, nossos sorrisos, eles funcionavam como imã um para o outro... Até nossa timidez, ela era esquecida nos exato momento em que um permitia...

Já não tinha mais como evitar...

Eu chorei, chorei pq eu não podia me trair, pq eu sabia que ia doer... Mas eu ainda sentia seus dedos entrelaçados nos meus...

Naquele momento em que eu e você unimos nossas mãos, onde ali, no segredo, no silêncio de nós dois, em meio a multidão, nossa carência permitiu o toque, que ninguém viu, que só nós sentíamos, e então pude acariciar cada pedacinho da sua mão e você, o cúmplice perfeito nos permitiu “o momento mágico”, conversando e tirando de nós a atenção, nosso primeiro e intenso, “momento de amor”! Foi tão lindo, tão forte, tão mágico e antes de ir embora, já quase partindo, você voltou e me beijou a face, numa ternura, que palavras são incapazes de narrar... E as mãos? Sim, elas ainda estavam unidas...

Poucas horas depois, elas voltaram a se unir, porem bem mais discretamente, só que houve mais, sorrisos, olhares, cumplicidades... Senti pela primeira vez que você queria estar tão perto quanto eu, me mostrou o temor das reações, suas? Minhas? Nossas! Você não foi sem me beijar e face, nem sem nossas mãos se encontrar... Mas daí veio um frio, um vazio e eu pensei... Acabou!...........................................

Foi tudo................

Os dias passavam e algo tomava conta de mim, me chamava, gritava... dizia: “hj vc vem...” E eu fui...
12 horas chuva torrencial... “Deus isso é loucura”, era tudo que eu me dizia... Quando nossos olhares se cruzaram, você abençoou cada gotinha caída sobre nós e num gesto inesperado, chegou até mim e me ofereceu o rosto a espera de um beijo que jamais seria negado... Divino!!!

Porém dentro de mim a necessidade de me afastar falava muito alto, eu precisava negar esse sentimento, tudo, tudo era gratidão, era influência das circunstâncias... Mas, meu coração ordenava, ele queria sua presença e mais uma vez eu fui a seu encontro... Mas prometi que seria diferente, prometi me proteger, eu não podia, eu procurava como um animal desesperado busca se proteger de sua presa, eu fugia desse sentimento, que ameaçava me aprisionar... Eu te encontrei, num momento tão especial, providencial, mas eu controlei e fiquei distante, mas a sua mão buscou a minha e me levou até seu abraço... Senti você, seu cheiro, sua barba por fazer roçar meu rosto, num gesto de quem precisa de ar eu me afastei. Seu olhar me dizia tanto em silencio... E mais uma vez você me alcançou e me puxou pra si, havia urgência naquele abraço, havia algo a ser dito e não foi... Olhei você através daquela porta de vidro e ouvi cada palavra que não foi dita, entendi as que você me disse no nosso código de cumplicidade...

Naquele momento entendi que eu já não poderia cumprir nada do que haverá prometido a mim mesma. Pois, estava disposta  cumprir a pena por minha fraqueza de não resistir e te amar...

Segredo meu, só meu... Já que teria que viver com isso, me bastaria a vergonha de mim mesma... Decidi!

Nunca mais te ver... Nunca mais (foi só a primeira de tantas vezes que eu decidi e falhei)... Meu coração chorava por vc... Então eu resolvi que do meio da multidão eu poderia ir, me camuflar e assim ver vc, sentir um pouco de vc, amenizar a dor da saudade, sem me expor... Mas, vc me achou! Perguntou por mim, exigiu minha presença... Como assim? Por quê? Era a hora de ser meu cúmplice lembra? Como antes? E ajudar?

Quem quebrou nosso trato? E nossas mãos se uniram... Você parou tudo, em meio aquela multidão ensandecida, o mundo parou, só existíamos nós... As pessoas olhavam sem entender, ou eu fingia que ninguém entendia pra não ser mais difícil do que já era! Toques e nenhuma palavra, as mãos sempre “incontiveis” (neologismo)... Você falou meu nome, pela primeira vez no intuito de chamar minha atenção, o tilintar... Era musica acorde perfeito, no tom perfeito, lindo! Segurando minha mão, brincava com meus anéis, me disse tantas coisas que eu fora de mim não fui capaz de compreender.... Mas num gesto quase de reverência, mas mais que isso de ternura eu beijei a sua mão e então senti seu beijo novamente em minha face... Você se foi, mas tanto deixou em mim, dessa vez você foi, mas nunca mais eu fui sozinha, nunca mais eu fui sem vc...

Quando voltamos a nos ver, tínhamos uma despedida marcada, uma ausência que não seria fácil vivenciar, mas você veio até onde eu estava e fez uma carinha que eu não ousaria dizer nem no escuro e pra mim mesma, ruborizo, só de lembrar... Nesse dia não houve beijo, não ouve afago, somente uma esbarrada de nossas mãos... Eu poderia ter ido tentado te dar um beijo, mas eu não queria... Não, eu tinha vc comigo, e guardaria isso...

Já num novo tempo eu te encontrei, na verdade eu pensei que te encontraria, mas não era você... Eu brilho do olhar não existia, nem meu sorriso, nem sua mão procurava a minha... E doeu... Muito!!!

As eu não podia te deixar, era mais forte que eu então vc me chamou, estando frente a frente, foi tão difícil conter, inclusive pra vc... Nossas mãos voltaram a se encontrar e longamente... Mágico!

Porém algo tinha mudado, eu já não lutava contra meus sentimentos, mas você sim...

Eu podia lutar comigo, mas não com vc, seria algo ao qual eu não queria e não quero!

Quando tudo parecia naufragar eu vi você chegar, seu aceno, sua proximidade... Fugi do seu olhar... Tão magoada... Diante de vc eu te abracei, te fiz uma promessa por amor e uma única pergunta... Amooooooo...

Então eu pude olhar seus olhos e ver neles a verdade, o calor e o sentimento que vc escondia a cada abraço interrompido!

Não era mentira? Não, eu não estava me magoando em vão...

Hoje eu vivo das lembranças lindas e da esperança que um dia o ‘conto das conchas que não sofrem’ vire realidade... Com todas as perolas que todo ser humano tem direito!

Não é fácil... Viver regando um jardim, que às vezes tem tantos espinhos ferindo nossos pés... Num caminho onde quase tudo é ilusão, é areia movediça... Porém eu acredito nos verdes faróis que eu olhei tão de perto e neles pude enxergar VERDADE!

Passando por cima de orgulho, de sentimentos que jamais imaginei... Deixando o vento me levar por terras que jamais imaginei passar, de formas que nunca admitiria, por amor!

Não sei o que será, nem como... Mas eu creio e vc?

Seja como for, seja o que for estou aqui, estarei eternamente...

Um dia eu disse: “Se não pode me fazer voar, não tire meus pés do chão...”

Depois de tudo e por tudo hoje eu digo: “Se for pra ser, que seja pra sempre!”

Déia Neves

18/05/2010
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